276 - PERDAS GESTACIONAIS EM TERRITÓRIO RURAL: ANÁLISE DA ATENÇÃO MATERNA NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
Universidade Regional do Cariri; Universidade Estadual do Ceará; Universidade de Pernambuco.
Antecedentes/Objetivos: As perdas gestacionais constituem importante indicador de iniquidades em saúde, especialmente em territórios rurais marcados por vulnerabilidades sociais, raciais e institucionais. No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), a identificação precoce de riscos e a articulação da Rede de Atenção à Saúde (RAS) são fundamentais para a prevenção de desfechos maternos adversos. O objetivo deste estudo foi analisar a ocorrência das fragilidades do cuidado materno no território de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) rural do município de Iguatu, Ceará, Brasil.
Métodos: Estudo descritivo, qualitativo, baseado em diagnóstico situacional no território de uma UBS, com análise de dados secundários do Prontuário Eletrônico do Cidadão, registros da ESF e observação do processo de trabalho, considerando aspectos epidemiológicos, clínicos, socioeconômicos e institucionais, orientados pela estratificação de risco gestacional e abordagem interseccional.
Resultados: Entre 14 gestantes acompanhadas pela ESF, foram identificados quatro casos de aborto espontâneo (28,6%) no período analisado. As mulheres tinham entre 21 e 37 anos, eram majoritariamente pretas ou pardas (75%), com baixa renda, inserção laboral informal e residência em área rural de difícil acesso. Os casos apresentaram fatores de risco clínicos relevantes, como histórico de aborto prévio, natimortalidade, pré-eclâmpsia, infecção urinária, sangramento no primeiro trimestre e incompetência istmocervical. Observou-se atraso na realização de exames diagnósticos, fragilidades na comunicação entre a APS e os serviços especializados e ausência de protocolos locais sistematizados para o acompanhamento de gestantes de risco. As perdas gestacionais também repercutiram em sofrimento emocional significativo, com relatos de tristeza, culpa e ausência de apoio psicossocial estruturado.
Conclusões/Recomendações: As perdas gestacionais identificadas refletem a interação entre determinantes clínicos, sociais, raciais e fragilidades institucionais da RAS, configurando um cenário de iniquidade reprodutiva. Recomenda-se o fortalecimento da vigilância ativa das gestantes, a adoção sistemática da estratificação de risco gestacional, a qualificação da articulação entre os níveis de atenção e a incorporação do acolhimento psicológico pós-perda como componente do cuidado integral. Estratégias de educação permanente e abordagem interseccional são essenciais para ampliar a resolutividade da APS e promover equidade na atenção à saúde materna em territórios rurais.










